-
Informações Úteis
-
Notícias
- O Eterno Retorno: Uma Jornada Literária e Sonora com Dulce Maria Cardoso
O Eterno Retorno: Uma Jornada Literária e Sonora com Dulce Maria Cardoso
Recentemente, o público foi convidado a uma experiência artística singular: o espetáculo "O Eterno Retorno". Este concerto, que transcende o formato tradicional de leitura ou recital, serviu como uma ponte sensível entre a palavra escrita e a atmosfera sonora, colocando em palco a aclamada escritora transmontana Dulce Maria Cardoso.
A Narrativa da Memória e da Identidade
O mote do espetáculo é a própria trajetória de Dulce Maria Cardoso, uma viagem que se inicia nas suas raízes em Trás-os-Montes, atravessa a sua infância e juventude marcadas pela experiência colonial em Angola, e culmina no traumático, porém transformador, "retorno" a Portugal após o 25 de Abril.
Ao longo do concerto, a autora partilhou com o público não apenas os factos biográficos, mas a essência psicológica e emocional que alimenta a sua obra. Foi um mergulho honesto sobre como o desenraizamento, a memória e a busca por um lugar no mundo moldaram a sua voz literária. A escrita de Dulce Maria Cardoso, tantas vezes descrita como incisiva e crua, revelou-se, nesta performance, como uma tentativa necessária de reconstruir identidades estilhaçadas pelo tempo e pela história.
A Simbiose entre Literatura e Música
A força de "O Eterno Retorno" residiu na sua curadoria musical. Acompanhada pelo prestigiado Quarteto Lopes-Graça, cuja mestria em fundir o erudito com a tradição portuguesa evoca uma profundidade quase narrativa, a música não serviu apenas de fundo, mas de contraponto emocional aos textos.
O Quarteto Lopes-Graça: Trouxe a sobriedade e a riqueza harmónica que acompanharam as passagens mais introspectivas e dramáticas da leitura.
Aldovino Munguambe: A inclusão da percussão de Munguambe foi o elemento vital que trouxe o "pulso" de África para o palco. Os ritmos e texturas sonoras criaram uma camada rítmica que sublinhou as memórias de infância da autora, evocando o calor e a vibração do continente que a marcou profundamente.
As peças musicais foram criteriosamente selecionadas para dialogar com os temas dos seus livros, como O Retorno ou Campo de Sangue. A música agia como um eco das palavras, preenchendo os silêncios e permitindo que o público processasse o peso da narrativa.
Um Espetáculo Necessário
"O Eterno Retorno" não é apenas um tributo a uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa contemporânea; é uma reflexão coletiva sobre a pertença. Ao expor as suas próprias feridas e memórias, Dulce Maria Cardoso convidou a audiência a revisitar as suas próprias histórias de partida e de chegada.
Numa fusão perfeita entre a palavra dita e a experimentação sonora, este concerto reafirmou que a literatura não vive apenas nas páginas dos livros, mas no modo como a sentimos, a ouvimos e a ressignificamos através da arte. Foi, em última análise, um exercício de memória partilhada, onde o "eterno retorno" não é apenas um fardo, mas uma forma de continuar a ser quem somos.










