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Oficina de Fornos de Secar Figos levou à aldeia de Lavandeira memórias, saberes e sabores de outros tempos
AA aldeia de Lavandeira, no concelho de Carrazeda de Ansiães, foi o cenário de mais uma iniciativa das Oficinas Memórias com Futuro, promovidas pelo Museu da Memória Rural, numa jornada dedicada à figueira, aos antigos fornos de secar figos e aos saberes tradicionais associados ao aproveitamento deste fruto.
Ao longo do dia, os participantes foram convidados a percorrer um percurso pela paisagem e pela memória de Lavandeira, descobrindo uma realidade que durante gerações marcou profundamente a agricultura, a alimentação e a economia das comunidades rurais do território.
A primeira parte da atividade foi dedicada ao enquadramento histórico da figueira e da presença do figo em Portugal. O figo é um fruto associado a uma longa tradição agrícola e alimentar no território português. A sua presença encontra-se documentada desde épocas antigas, tendo assumido particular importância ao longo da Idade Média, quando o figo fresco e, sobretudo, o figo seco, se afirmaram como produtos de consumo corrente. O próprio foral manuelino de Ansiães faz referência aos figos frescos e figos secos, integrando-os entre os produtos sujeitos a tributação.
Durante muito tempo, o figo constituiu um recurso de grande importância para as populações rurais. Fácil de conservar depois de seco, podia ser consumido ao longo de todo o ano, desempenhando um papel relevante na alimentação humana e também na alimentação dos animais. Quando as condições e a procura o permitiam, os figos eram secos ao sol, em tabuleiros de madeira, palha ou lajes de xisto e granito; noutras situações em que a condições climatéricas não o permitiam, eram utilizados os característicos fornos de secar figos.
Uma paisagem marcada pelos fornos de secar figos
O percurso realizado em Lavandeira permitiu igualmente compreender a presença destas estruturas na paisagem rural. Os fornos de secar figos constituem uma das expressões mais particulares da arquitetura vernacular da Terra Quente Transmontana e encontram-se documentados em vários pontos dos vales do Tua e do Douro.
São construções geralmente simples, erguidas em pedra — sobretudo xisto e granito —, podendo assumir plantas circulares, quadrangulares ou retangulares e apresentar um ou dois pisos. Apesar do seu aspeto aparentemente modesto, testemunham técnicas construtivas e formas de aproveitamento dos recursos agrícolas que foram fundamentais para a sobrevivência das comunidades rurais.
A investigação do Museu da Memória Rural registou diversos exemplares no território de Carrazeda de Ansiães, incluindo vários na própria aldeia de Lavandeira, assim como noutras localidades próximas, demonstrando a expressão que esta atividade teve na região.
Durante a visita foi feita uma reconstituição do processo tradicional de secagem dos figos num destes fornos, permitindo aos participantes compreender, através da experiência, uma tarefa que fazia parte do calendário agrícola das comunidades locais.
O processo começava pelo aquecimento do forno. Depois de retiradas as brasas e cuidadosamente varridas as cinzas, era colocada palha humedecida e, sobre esta, os figos. A porta era então tapada e os frutos permaneciam no interior durante algumas horas, até atingirem o ponto adequado da desidratação. Esta prática, ainda presente na memória de antigos habitantes de Lavandeira e de outras localidades da região, mostra como o conhecimento agrícola era transmitido essencialmente pela experiência e pela oralidade.
Dos figos secos aos sabores da memória
A tarde foi dedicada à transformação e ao aproveitamento do figo, numa componente mais prática e participativa da oficina. Os participantes puderam acompanhar uma demonstração sobre a confeção tradicional de doce de figo, conhecendo os procedimentos e os saberes associados a esta forma de aproveitar e conservar o fruto.
Mais tarde, a atividade prosseguiu junto de um forno tradicional de cozer pão, onde os participantes tiveram oportunidade de conhecer e experimentar a preparação de pão de figo, recuperando uma combinação de sabores profundamente ligada à alimentação rural de outros tempos.
Mais do que reproduzir simplesmente receitas antigas, estas experiências permitiram perceber a lógica de uma economia doméstica baseada no aproveitamento integral dos recursos disponíveis. O figo podia ser consumido fresco, seco, transformado ou incorporado em diferentes preparações, prolongando-se assim a sua utilização muito para além do momento da colheita.
O património são as pessoas
Para o Museu da Memória Rural, uma oficina como esta ganha, contudo, um significado que ultrapassa a própria temática dos fornos ou da cultura da figueira, porque o principal património do Museu são as pessoas. São as pessoas que guardam os conhecimentos, as histórias, as técnicas, as palavras e as experiências que dão sentido às paisagens e aos objetos que hoje procuramos preservar. É através delas que um forno abandonado deixa de ser apenas uma construção antiga e passa a contar uma história; que um figo seco deixa de ser apenas um alimento e passa a evocar uma forma de vida; e que uma receita se transforma num testemunho de uma comunidade.
É também por isso que as Oficinas Memórias com Futuro procuram criar momentos de encontro entre diferentes gerações, aproximando quem ainda conserva na memória estes saberes de quem hoje os quer conhecer e experimentar.
Em Lavandeira, crianças, jovens, adultos e pessoas da localidade com memórias de outros tempos puderam partilhar experiências em torno de um património que não está apenas nas pedras dos antigos fornos, mas sobretudo nas mãos, nas palavras e nas histórias de quem os utilizou.
É nesta aproximação entre pessoas e gerações que o Museu da Memória Rural encontra uma das suas principais missões: transformar a memória em conhecimento, o conhecimento em experiência e a experiência em futuro.
Porque preservar o património não significa apenas conservar aquilo que o tempo deixou. Significa, também, criar condições para que os saberes continuem a circular, para que as memórias possam ser partilhadas e para que as novas gerações possam receber, reinterpretar e dar continuidade à herança cultural do território.








